
Beirute sem guerra na tela de
Nadine Labaki. O que soa meio estranho à primeira vista e chegou a fazer a própria diretora se questionar, mas a recepção do público deu força pra essa proposta de sugestão estética e outro tipo de engajamento político.
Em
Caramel, uma produção franco-libanesa, quem ganha protagonismo são as mulheres do Líbano e a repressão (sutil ou direta) que vivem sob uma aparente liberdade. Suas histórias tomam forma a partir da atuação de pessoas comuns. Não são atrizes que contam a vida dessas cinco amigas que frequentam ou trabalham no mesmo salão de beleza, mas uma dona de casa, uma empresaria, uma assistente de direção, a própria diretora do filme, que queria trabalhar a partir de uma fusão entre a ficção e a realidade, explorando as experiências de cada uma.
O título faz referência a uma mistura de açúcar, suco de limão e água, usada no Oriente Médio como método para depilação. Mas, segundo Nadine Labaki, "caramelo sugere a idéia do açucarado e do salgado, do amargo e do doce, do açúcar delicioso que pode queimar e ferir".
Por motivos óbvios, me encantei com a história de Lili, uma velhinha das vizinhanças do salão de beleza. A "atriz" foi encontrada ao acaso pela diretora e é uma cristã que só fala árabe. Sua personagem no filme é baseada em uma história contada a Labaki sobre uma jovem apaixonada por um oficial francês que, quando deixou o Líbano, escrevia-lhe todos os dias. Mas as cartas foram interceptadas pela família e, quando ela descobriu, já era tarde. Entre lembranças e fantasias, Lili é obsessionada em recolher todos os restos de papel pela rua.
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O filme levou o Prêmio do Público no
Festival de San Sebastián, no ano passado, e na noite de sábado foi capaz de lotar a última seção no
Renoir Floridablanca.